domingo, 11 de janeiro de 2009

Capuchinho Vermelho

Era uma vez uma menina tão bonita como não havia outra; a mãe gostava muito dela, e a avó mais ainda.Tinham-lhe mandado fazer uma capinha vermelha com um capuchinho, que lhe ficava tão bem que toda a gente lhe chamava Capuchinho Vermelho.Certo dia, a mãe fez um bolo e disse-lhe:
— Vai saber da avozinha, porque me disseram que está doente; leva-lhe este bolo e este boiãozinho de manteiga.
O Capuchinho Vermelho partiu logo para ir visitar a avó, que morava noutra aldeia. Ao passar pela floresta encontrou o lobo (que estava resolvido a comê-la, mas não se atreveu por causa dos lenhadores que andavam a cortar árvores), que lhe perguntou onde ia. A menina, que não sabia como era perigoso parar no caminho para falar com um lobo, respondeu:
— Vou visitar a minha avó e levar-lhe um bolo e um boiãozinho de manteiga que manda a minha mãe.— E ela mora longe? — perguntou o lobo.
— Ah!, mora — respondeu o Capuchinho Vermelho. — Fica para além daquele moinho que se avista lá muito adiante; na primeira casa da aldeia.
— Muito bem — disse o lobo. — Também quero ir fazer-lhe uma visita. Eu vou por aqui, e tu vais por ali. Veremos quem chega primeiro.
O lobo deitou a correr pelo caminho mais curto e a menina foi pelo caminho mais comprido, entretendo-se a apanhar avelãs, a correr atrás das borboletas e a fazer raminhos com as flores que encontrava.
O lobo não levou muito tempo a chegar a casa da avó. Bateu à porta: truz! Truz!
— Quem é? — perguntou a avozinha.
— Sou a sua netinha Capuchinho Vermelho — disse o lobo, disfarçando a voz.
— Trago-lhe um bolo e um boiãozinho de manteiga que manda a minha mãe.
A boa avozinha, que estava de cama com uma constipação, gritou:
— Pega na aldraba e levanta o fecho.
O lobo pegou na aldraba e a porta abriu-se.

Atirou-se à avó e já se preparava para a comer num abrir e fechar de olhos, porque havia mais de três dias que não comia nada, quando a avó, muito assustada, fugiu e foi esconder-se no armário, fechando a porta por dentro.
O lobo apanhou a touca e os óculos da avó, pôs ambas as coisas e meteu-se na cama à espera do Capuchinho Vermelho, que dali a pouco veio bater à porta.Truz! Truz!
—Quem é? — perguntou o lobo, mas já à espera do Capuchinho Vermelho.
O Capuchinho Vermelho, que ouvira a voz grossa do lobo, assustou-se, mas, julgando que a avó estivesse constipada, respondeu:
— Sou a sua netinha Capuchinho Vermelho. Trago-lhe um bolo e um boiãozinho de manteiga que manda a minha mãe.

O lobo disse, com uma voz muito meiga:
— Pega na aldraba e levanta o fecho.

O Capuchinho Vermelho pegou na aldraba e levantou o fecho, e a porta abriu-se.O lobo, ao vê-la entrar, disse-lhe, escondendo-se debaixo do cobertor:
— Põe o bolo e o boiãozinho de manteiga em cima da arca e vem deitar-te ao pé de mim.O Capuchinho Vermelho tirou a capa e ia meter-se na cama, quando olhou muito admirada para a avó e perguntou:
— Avó, porque tem uns braços tão grandes?
— São para te abraçar melhor, minha neta!
—Avó, porque tem umas pernas tão grandes?
— São para correr melhor, minha neta.
— Avó, porque tem as orelhas tão grandes?
— São para te ouvir melhor, minha neta.
— Avó, porque tem uns olhos tão grandes?
— São para te ver melhor, minha neta.
— Avó, porque tem uns dentes tão grandes?
— São para te comer.
E, dizendo estas palavras, o lobo mau saltou da cama para comer o Capuchinho Vermelho. Mas a menina gritou, gritou tanto, tanto, que os lenhadores que andavam na floresta vieram a correr para lhe acudir. E deram uma tareia tão grande no lobo que ele fugiu a ganir, cheio de medo e nódoas negras.
Depois, os lenhadores abriram o armário, dentro do qual a avó, coitada, tinha desmaiado com o susto.
Mas bastou molharem-lhe a testa com uma pinguinha de água fresca para ela abrir os olhos e ficar logo boa.
O Capuchinho Vermelho abraçou-se à avó e prometeu que nunca mais queria conversas com o lobo.E ambas comeram o resto do bolo. O resto, sim, porque primeiro a avó tinha, cortado umas poucas de fatias para oferecer aos lenhadores que as tinham livrado daquele grande perigo.

O Capuchinho Vermelho. In Os melhores Contos de Perrault. Adaptação de Maria Isabel Mendonça Soares e ilustrações de Paul Durand. Verbo

3 comentários:

Storyteller disse...

"o Capuchinho Vermelho" sempre foi uma das minhas histórias preferidas, embora só muito mais tarde tenha percebido o seu real signifiado (que é alvo de muita controvérsia entre os especialistas em contos de fadas). Embora eu seja uma romântica incurável e goste de histórias como "A Bela e o Monstro" e "O Príncipe Sapo", em que as heroínas transformam os objectos da sua afeição em príncipes (e que belos princípes!), "O Capuchinho Vermelho" revela que a heroína tem um lado selvagem em todo semelhante ao do lobo.
Se calhar esta é uma visão um pouco feminista da história, mas também há um Alguém que acha que eu sou feminista, por isso...

Porque acredito no amor disse...

Eu diria que o seu lado selvagem é de quem enfrenta o medo...
Também gosto desta história que mais não seja porque o capuchinho é vermelho:-)

Storyteller disse...

Eu diria que o seu lado selvagem é de quem não tem medo de arriscar...
Olha o lobo - achas que ele teve medo de arriscar?